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Com o início do CBLOL 2023, e começo da temporada em vários outros campeonatos importantes, volta à tona um assunto que vem, por sorte, sendo mais valorizado nos últimos anos: a saúde dos jogadores. Não só a saúde física, claro, mas também a mental e a nutrição. Assim como nos esportes tradicionais, o corpo e a mente de um atleta de esports trabalham juntos para que o seu rendimento esteja sempre no 100%.

Reprodução: Dust2/HLTV

Nesse mercado que, querendo ou não, vive um crescimento acelerado e adaptações constantes derivadas de outras disciplinas são aplicadas, muitos profissionais vêm se destacando nos bastidores e desenvolvendo, pouco a pouco, a área no Brasil.

Para a realização dessa reportagem, conversamos com vários destes profissionais de saúde que trabalham, ou trabalharam recentemente, em grandes times no Brasil. A lista completa com nomes e redes sociais para contato está ao final do texto. Esse artigo não tem o objetivo de explicar temas teóricos ou técnicos das três principais áreas a serem exploradas, mas mostrar a sua importância e principais métodos de trabalho. Para informações específicas, recomendamos o contato direto com os especialistas mencionados.

O que é importante entender?

Bom, muitas coisas. A começar que não somos robôs. Nenhum jogador de nenhum time do mundo é perfeito. Todos têm dores, problemas pessoais, não gostam de salada, estão fisicamente cansados etc.

Por mais que essa noção deveria ser básica e de conhecimento comum, muitas vezes nós, como fãs, esquecemos que os nossos jogadores favoritos também são humanos. Humanos esses que passam entre 6 e 8 horas por dia treinando, seja individualmente ou em equipe e, ao mesmo tempo, tentando ter uma vida social e fazer outras coisas. E, mesmo com exceções à regra, essa é uma realidade para a grande maioria dos jogadores profissionais de qualquer time de médio ou grande porte. Claro que eventualidades acontecem, e são para essas situações que os profissionais da saúde dos times estão preparados.

Um time não quer que o seu atleta fique de fora por uma lesão ou porque que ele não consegue se relacionar de maneira eficiente com o time e, assim como qualquer time ou seleção de um esporte tradicional, o objetivo desses profissionais é manter os jogadores em condições ótimas para que a sua performance não seja afetada por fatores externos.

Psicologia:

Qualquer pessoa que já jogou algum tipo de jogo competitivo sabe o quão difícil é manter a calma em momentos em que tudo o que se deseja é arrancar a jugular do amiguinho, ou se atirar da janela. Manter a paz consigo mesmo, o desempenho e o respeito dentro de um time é o objetivo principal dos psicólogos esportivos.

Para Roxie Pirro, psicóloga da Red Canids, o primeiro ponto importante a se entender sobre a psicologia esportiva é que se uma pessoa sente ansiedade antes de uma partida, ela vai jogar com ansiedade. Não porque se conversa com um psicólogo que automaticamente a ansiedade some e pronto. Mas é parte do trabalho desses profissionais usar todos os recursos possíveis para que essa ansiedade não destrua a performance do jogador e para que esse possa organizar objetivos claros em todas as suas ações.

Segundo Yan Cintra, psicólogo e Coordenador do Departamento de Saúde e Performance da LOUD, os principais pontos de trabalho da psicologia esportiva, tanto tradicional como de esports, são a preparação pré-competitiva, gerenciamento de foco e estresse, atenção e concentração, e nível de ativação, a partir das habilidades mais singulares como autoconfiança, autoconhecimento, autogerenciamento, liderança, cooperação, organização de rotina, implementação de hábitos saudáveis, entre outras.

Algo importante a notar é que, como profissionais que muitas vezes tem que lidar com muitas pessoas de diferentes line-ups, os psicólogos esportivos podem, sim, lidar com questões pessoais dos jogadores mas, segundo Yan, o mais correto a se fazer, é indicar um especialista na área específica, como transtornos alimentares ou psicopatologias mais severas.

“Quando tudo está dando certo, é tudo muito fácil, mas quando as coisas começam a dar errado é quando os conflitos começam a aparecer”, disse Yan.

“Quando eu inicio com um time ou jogador, eu tenho a tarefa de botar na cabecinha dele que ser um atleta é uma coisa gradual, que se conquista. Ele ou ela tem que se esforçar para melhorar 1% a cada dia, não mais. Se essa pessoa tiver que focar em melhorar 10%, ela vai acabar exausta e não vai ter a constância necessária para evoluir. E ela sempre tem que ter objetivo nas coisas que faz, por menores que sejam. Vai jogar uma SoloQ? Pensa em: certo, vou entrar nessa partida e focar em farmar, por exemplo. Não importa se você perdeu a partida ou não, mas se você fez isso e conseguiu cumprir o pequeno objetivo do dia, você já melhorou o 1% “, comentou Roxie.

Segundo a psicóloga, às vezes e por diversos motivos, os jogadores não botam o 100% de si dentro das partidas ou dos treinamentos, e é papel essencial do psicólogo esportivo analisar o motivo desse tipo de comportamento e ajudar o jogador a entender a situação e voltar a performar bem.

Fisioterapia:

O que é realmente a fisioterapia?

Grande parte das pessoas responderia que a área se refere, principalmente, a reabilitação e cura de lesões, fato que não está necessariamente errado, mas não engloba o total da área. O fisioterapeuta é o profissional responsável pela eficiência física dos jogadores, e um dos principais pilares do seu trabalho é o preventivo. Lesões por esforço repetitivo ou na coluna e lombar, as mais comuns para os atletas de esports são, normalmente, trabalhadas desde antes que aconteçam. Vitor Kenji, o pioneiro da fisioterapia nos esports no Brasil e atualmente fisioterapeuta da Liberty, comentou que a própria natureza da competição propícia o ambiente para lesões:

“Quando nós falamos de atletas de alto desempenho, nós entendemos que eles são pessoas que convivem com a dor. Eles estão no limite do corpo o tempo inteiro.”

Segundo Gustavo Toledo, fisioterapeuta da Los Grandes, grande parte das lesões nos esports são “evitáveis”, acontecidas por sobrecarga de movimentos repetidos ou posturas erradas mantidas por longos períodos, a diferença dos esportes tradicionais, por exemplo, onde muitas são causadas por batidas ou situações parecidas, reforçando ainda mais a questão preventiva.

Por último, a fisioterapia também joga um papel fundamental na otimização da performance do jogador, incluindo treinos de reflexo, tempo de reação etc. onde, muitas vezes, o fisioterapeuta trabalharia em conjunto com o psicólogo do time, reforçando uma atividade através de ambas as frentes. Também, na recuperação do jogador que, por mais que não esteja machucado, o estresse próprio dos treinos e da competição podem enrijecer músculos e gerar complicações ou mal-estares.

Um fato interessante sobre o trabalho dos fisioterapeutas de esports é que, assim como no esporte tradicional, cada disciplina leva consigo as suas lesões mais comuns. Fora as lesões de coluna, relacionadas a postura e a quantidade de tempo sentados dos jogadores, para aqueles que jogam MOBAs, as lesões no antebraço são mais comuns, devido a quantidade de clicks repetitivos realizados durante as sessões de treinamento. Para os jogadores de mobile, a Síndrome de De Quervain (nome bonito para uma lesão na região das mãos relativa aos movimentos do polegar) é a mais comum e, finalmente, para os jogadores de FPS, lesões no ombro são algumas das principais, por conta dos movimentos rápidos e precisos com o braço inteiro,

A postura é, sem dúvida, um dos principais fatores abordados. Jogadores como Fallen, por exemplo, já foram reféns de lesões nas costas que puseram em perigo a sua performance. Ainda assim, Vitor Kenji comenta que as organizações não deveriam “forçar” um jogador a mudar postura com a que ele ou ela se sente confortável, visto que uma mudança drástica poderia afetar o desempenho do jogador in-game, mas sim trabalhar para fortalecer a musculatura em torno da coluna e evitar possíveis incômodos.

De acordo com Leonardo Velloza, fisioterapeuta da Vivo KeyD, outro ponto importantíssimo não só para o bem-estar do jogador, mas para o seu desempenho, é o sono. Segundo Velloza, pessoas que dormem entre 6 e 7 horas por noite, tem episódios de micro sono, ou momentos de ausência, aumentados em até 400% durante o dia, e que, para compensar a falta de horas dormidas, o corpo libera mais cortisol, o “hormônio do estresse”, e um atleta estressado seria muito mais propenso a missclicks, mais ansiedade e menos precisão.

Nutrição:

Possivelmente a uma das áreas da saúde mais importantes e, ao mesmo tempo, mais subvalorizadas, a nutrição é a área que, literalmente, ajuda a gerir a energia que o nosso corpo dispõe para o seu funcionamento correto.

Sabe quando você come muito e tem sono depois? Evidentemente, a mesma coisa acontece nos esportes, uma barriga cheia, ou vazia, antes de uma partida importante pode ser um dos fatores decisivos para uma performance espetacular ou medíocre. Segundo Ana Clara Leite, nutricionista do MiBR, a dieta de cada um dos jogadores está relacionada com os objetivos pessoais, seja perder ou ganhar peso, por exemplo, e os de trabalho, como comer na hora certa e manter a rotina e os timings corretos.

O que muitas pessoas não sabem é que os esportes eletrônicos, ou outros relacionados diretamente com a performance mental, como o xadrez, exigem muito energia e, segundo a nutricionista, em um treino de duas ou duas horas e meia, um jogador de LoL ou Valorant, por exemplo, pode gastar até 1400 calorias que devem ser suplantadas após as atividades, a fim de não interferir na performance do jogador. De qualquer maneira, saber manter uma dieta balanceada e uma rotina de exercícios físicos minimamente saudáveis, como uma caminhada ou andar de bicicleta, ajudam os jogadores a se manterem ativos e atentos por mais tempo, prolongando assim também o seu ciclo de vida competitivo.

Então chega de sushi e McDonald ‘s dia sim, dia não, entendeu? E tomem café da manhã!

No final das contas tudo ajuda. Depois de jogar duas partidas, levanta, tome um pouco de água, estique um pouco os braços e, foco nessa parte, faça o possível para conseguir manter uma boa rotina de sono. Jogar SoloQ até às quatro da manhã nunca é algo frutífero.

Agradecemos aos profissionais que ajudaram na criação desse texto, e pedimos desculpas por não poder incluir todos os conceitos analisados durante as entrevistas. Se você acha que precisa de ajuda, não duvide em procurar um especialista, e temos certeza que a performance dentro e fora de jogo aumentará de maneira exponencial.

Lista de profissionais entrevistados: